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quinta-feira, 19 de maio de 2011

A grande busca pelo prazer



Capítulo 3: Frustração

Acordou na cama do hospital, não estava só, na cama ao lado um velho mal vestido tossia seco, pensou em pedir para levá-lo para o hospital particular de seu convênio médico, mas já havia soro aplicado em seu braço, era mias prátiico ficar. Um doutor bigodudo entrou na quarto, fez algumas perguntas de rotina e descobriu todo o drama de Carmo, disse que ele ia ficar em observação por um tempo e que precisaria tirar uma chapa de sua cabeça, precisavam saber se os sintomas eram psicológicos ou se eram algum trauma pela surra da noite passada. Quando o doutor saiu, Carmo resmungou:
- Mais essa agora, estou preso neste lugar decadente.
O velho na cama ao lado ouviu, deu uma tosse seca e disse com uma voz rouca e moribunda:
- Quer um livro?
Carmo o ignorou, estava com nojo do velho, mas ele não desistiu:
- Perguntei se quer um livro? É o melhor companheiro para passar o tempo.
- Não, obrigado.
- Tem certeza? Nós vamos ficar horas aqui neste quarto e aqui não tem televisão.
Horas em um lugar sem televisão, precisava dar alguns telefonemas, mas nada que o entretesse como seu trabalho, era certo que ficaria longe do escritório por um bom tempo, não havia muito o que fazer, não havia com o que se ocupar, e isso significaria que teria que se encarar, teria que passar muito tempo consigo mesmo, aceitou o livro:
- Tem razão, o que você tem aí?
O velho puxou uma bolsa esfarrapada, haviam muitos livros lá dentro, ele começou a escolher como quem escolhe um presente, finalmente separou um dos livros e disse:
- Este! Sinto que foi feito para você!
Ele riu e depois tossiu seco novamente. Carmo pegou o livro, com um pouco de nojo, mas não poderia ser pior do que passar horas consigo mesmo. O nome do livro era "Sexo tântrico: A arte do prazer". Ele olhou para o velho com uma cara de espanto. Ou ele estava ficando louco, ou havia algum sinal místico alí, como se o destino tivesse se encarregado de trazer para ele as respostas que tanto procura em um só livro. Talvez sua psicóloga estivesse certa, e talvez aquele livro poderia conduzí-lo até a saída para suas aflições.

Resolveu não fazer as ligações e fingir que estava morto, começou a ler as páginas amarelas e secas do livro. O autor era um gurú chamado Raj, segundo o prefácio, ele vivia no país, mas era nascido na Índia. Havia, logo de cara, muita filosofia de vida, não se tratava apenas de sexo ou de prazer, havia algo profundo alí, uma idéia religiosa aversa ao moralismo ocidental, tudo começava a fazer sentido.
Carmo devorava o livro como um cão faminto engole todos os restos de comida antes que alguém o enxote. Precisava extrair o máximo de informações antes de ser atendido. Não funcionou, foi atendido rapidamente, abandonou o livro em cima de seu leito com um peso no coração. As chapas não revelaram nada anormal, estava saudável, o que não foi exatamente uma boa notícia, tinha esperanças de encontrar um tumor no seu cérebro que justificasse seus surtos e sua falta de vida. Ao voltar para o quarto, o velho já não estava mais lá, porém esqueceu o livro tal como ele o deixou, ou talvez tenha o dado para Carmo e de fato, aquele foi o melhor presente que ele ganhou desde que outro bom velhinho o deu uma bicicleta no natal.

Nos dias seguintes, havia algo diferente em Carmo além dos óculos escuros que escondiam seu olho roxo, havia esperança. Leu o livro duas vezes e se apegou a filosofia de vida do gurú, estava disposto a mudar, pronto para um recomeço, naquela semana ele conseguiu dormir e não teve outros surtos, sábado pegou o jornal e abriu na parte de classificados, procurava uma acompanhante.
Circulou alguns anúncios, mas nada que o chamasse muito a atenção, algumas se diziam modelos com experiência no ramo, outra se auto-denominava de "sua cadelinha particular", a maioria cobrava uma taxa extra por sexo anal. Os anúncios excitaram Carmo, mas ele temia acabar com uma baranga, essa seria sua volta a vida sexual, ele precisava escolher bem. Então a palavra "ruiva" saltou em seus olhos:
"Putinha de elite: Ruiva, 22 anos, modelo."
Era nova, era ruiva e dizia ser modelo, Carmo não conseguiu imaginá-la feia. Ligou e combinou um encontro na mesma hora, em sua própria casa, ela deu seu preço, era muito cara, mas isso não era problema nenhum. Tomou um banho, se perfumou, vestiu seu melhor terno, seárou um espumante que guardava para o ano novo, queria causar uma boa impressão, mas o fato é que sair com um ricasso é o tipo de coisa que causa uma boa impressão em qualquer prostituta, na verdade causa boa impressão até em mulheres de família.
A campainha tocou, ela chegou. Carmo tremia, mas não estava tendo um de seus surtos, estava ansioso, percebeu que este momento era um momento sagrado na vida de um homem, o sabor do "porvir", o receio, o frio na barriga, antes de abrir a porta apreciou o momento, respirou fundo pela primeira vez em dias e sentiu-se vivo pela primeira vez em anos.
Ela era magra, estatura mediana, peitos e bunda de tamanho normal, cabelos cacheados e laranja, realmente era ruiva, seu rosto era muito feminino, Carmo esperava que uma puta tivesse um ar de "matadora", olhar sedutor, mas ela tinha um ar ingênuo, um olhar de menina, se passaria facilmente por uma garota de 15 anos, ele pensou em perguntar a idade dela, mas teve medo, preferiu acreditar no anúncio do que correr o risco.
Michele, como ela se chamava ou dizia se chamar, nunca se sentiu tão bem tratada por um cliente, jantaram salmão a luz de velas, beberam espumante e conversaram. Ela não entendia o que estava contecendo, sentiu-se uma princesa em uma espécie de conto de fadas moderno, ele era rico e bonito, não era casado ou mentia muito bem, tinha um ótimo gosto, etiqueta, um verdadeiro lorde e o olho roxo completava o quadro, dava a ele um ar humano, uma prova de que aquele homem não era perfeito, que era real. Sentiu-se excitada com o fato dele ter se envolvido em uma briga, exatamente como nos programas do Animal Planet. Precisou perguntar:
- Qual seu problema?
- Pois não?
- Qual seu problema cara? Você é o "Senhor-perfeição", é rico, bonito, tem um ótimo emprego, vive num palácio e está me tratando tão bem como nunca fui tratada em toda minha vida.
- Já assistiu aquele filme "Uma linda mulher"?
- É, estou me sentindo como a Julia Roberts agora, isso é estranho, isso não acontece, não na vida real, tam algo no ar, você é casado, não é? Ou será algum tipo de serial killer?
Carmo riu, mas sabia que ela já estava começando a enxergar a verdade, ele não é um homem normal.
- Olha, eu sou rico e quero passar uma noite gostosa com uma mulher bonita.
- Sim, e porque pagar por isso? Quero dizer, você consegue a mulher que quiser.
Ele teve vergonha de dizer que estava a anos sem sexo, que era depressivo e que a vida já não fazia sentido algum para ele, preferiu dar uma de homem seguro, e ele sabe fazer isso.
- É mais prático. As mulheres só querem saber do meu dinheiro, assim como você, mas a diferença é que amanhã você não vai me ligar para encher meu saco.
- Acho justo.
Ela pareceu acreditar, para sabia que havia algo estranho, alguma coisa obscura em Carmo. Se aproximou dele e o agarrou em cima da mesa de jantar, em um segundo ela passou de garota para mulher, Carmo se assustou, ela pegou seu pênis, mas ele não estava excitado.
- Algum problema?
- Não tenha pressa, vamos para minha hidromassagem.
Ele estava nervoso, sua mão esquerda começou a tremer, suava frio, era um começo de surto. Ele começou a pensar "Agora não!", recitava isso mentalmente como um mantra, tentou respirar fundo e fez algumas mentalizações que aprendeu no livro, mas não funcionou. Chegaram na banheira, se despiram e se beijaram. O corpo dela era cheio de sardas e delicado como uma boneca de porcelana, sua pele era macia e seu cabelo cheirava shampoo comum.

Ele tentou por algum tempo se excitar, mas não conseguiu. Sentiu que sua máscara de homem seguro caiu, seu pênis o traiu, revelando sua verdadeira face, a de um homem sem vida. Surtou, começou a respirar ofegante, suas mãos tremiam, tentou sair da banheira e caiu no chão. Michele ficou preocupada, tentou acalmá-lo:
- Relaxa cara! Isso acontece. Tenta respirar devagar.
Não funcionou, ela o arrastou para a cama e o cobriu, procurou em sua bolsa por um calmante, buscou um copo de água, ele aceitou, mal conseguia engolir a pílula junto com a água, disse gaguejando:
- Sai do meu quarto! Pega seu dinheiro e sai! Agora!
Michele obedeceu.

Enquanto ela pegava o dinheiro e se vestia, Carmo sentiu-se frustrado e sua frustração presente, parecia uma ressonância de cada fracasso que passou pela sua vida. Lembrou-se de cada garota que o rejeitou para ficar com um valentão no colegial. Lembrou-se dos amigos contando sobre suas primeiras experiências sexuais e de como ele usou os estudos como desculpa para não ter que enfrentar sua própria timidez . Lembrou-se também que esses mesmos amigos hoje estão casados e que ele vive em uma mansão gigantesca, mas que está sozinho. E acima de tudo, lembrou-se do dia em que o grande amor de sua vida casou-se.
Olhou mais uma vez para aquela bela mulher ruiva, como ele gostava, parecia saida de um dos seus sonhos eróticos da puberdade, despediu-se das sardas enquanto ela as cobria com suas roupas, despediu-se interiormente também dela, e sentiu que estava se despedindo de sua própria capacidade de ter prazer. Durante toda sua vida ele trocou o prazer pela responsabilidade, as festinhas do colégio pelos estudos, as pessoas pelo trabalho, isso estava enraizado nele, e agora ele não conseguia reverter sua situação. Estava paralisado no tempo, por fora era um homem feito e maduro, mas por dentro era um adolescente nerd cheio de espinhas, com medo de se relacionar e profundamente frustrado consigo mesmo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A grande busca pelo prazer



Capítulo 2: Desespero


Na semana seguinte, Carmo deitou no divã decidido a colocar um fim naquilo tudo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a "raposuda" femme fatale o interrompeu:
- Carmo, seu problema é sexo!
Carmo levantou-se do divã, não sabia se agradecia ou se brigava com Cíntia, sentou-se. Coçou a cabeça e falou:
- O que quer dizer? Acha que me masturbo demais? Acha que sou gay?
- Não Carmo, você é reprimido sexualmente, acho até que se masturba de menos, talvez na sua infância sua mãe te repreendeu por tê-la visto nua.
- Isso é possível.
- Não sei exatamente onde a raiz do problema se encontra, mas enquanto a gente não solucionar este enígma, você jamais poderá fazer sexo e por consequência, ficará deprimido, talvez para sempre.
"Para sempre" tem um peso muito grande, e Carmo sentiu esse peso cair sobre suas costas, ele precisava fazer alguma coisa, e sabia que Cíntia não poderia ajudá-lo. Ele não se importou com a raiz do problema, sabia que precisava fazer sexo, e tudo acabaria. Dane-se a raiz do problema! Levantou-se e saiu do consultório mais apático do que nunca, apenas dispensou os serviços de Cíntia. Ela quase entrou em pânico, sua missão com Carmo e consequentemente com si mesma, fracassou, talvez sua vida fosse uma grande ilusão, talvez dinheiro e poder realmente não tragam felicidade, talvez ter gastado seus dias com os livros enquanto suas amigas saiam por aí bebendo e trepando com qualquer um não tenha sido uma boa escolha, naquela noite, certamente Cíntia não dormiu e nem Carmo.

Ele rolou na cama, não conseguia mais chorar, começou a tremer, estava tendo um ataque de nervos, ou síndrome do pânico, na verdade o nome não faz diferença, o fato é que na ausência de cerotonina, seu cérebro não podia parar de funcionar, como nosso corpo é muito inteligente, ele usa um outro neuro-transmissor, no caso: Adrenalina. Carmo estava em perigo, tinha medo, mas perigo porque? Medo de que? Estava ansioso, mas não sabia o motivo. Quando se sente coisas terríveis, mas não se sabe da onde elas vêm, quando temos medo, mas não sabemos medo de quê, só existe uma palavra que pode definir este estado de total falta de controle, de total falta de esperanças: Desespero. Tinha medo de ficar sozinho? De morrer, de perder sua fortuna, de tornar-se um mendigo? Ele não sabia, não sabia mais quem ele mesmo era em frente ao espelho e pela primeira vez em anos, resolveu sair para beber.
O desepero nos leva a tomar decisões estranhas, Carmo não era de beber, nem de sair, muito menos sair naquele estado, qualquer outra pessoa iria para um hospital achando ter um ataque cardíaco, mas foi assim que ele reagiu.


Estacionou sua caminhonete importada 4x4 em um local seguro, ele gosta de caminhonetes porque são mais respeitadas no trânsito, como não estava bem, achou que de dentro da cabine da caminhonete ele fosse se sentir um pouco superior. Entrou em um barzinho cheio de playboys e patricinhas, algumas olharam para ele, pediu uma garrafa de uísque movido pela mesma sensação da cabine de sua caminhonete, é uma bebida que exala poder, não adiantou muito, ainda tremia. Uma loira deslumbrante aproximou-se.
- Red ou Black?
Fez uma cara de desentendido, ficou hipnotizado pelo decote, mas ela não tinha os peitos grandes, era magrinha, corpo de modelo, devia ter seus vinte e pouco anos, sua pele parecia ter o sabor da juventude misturado com um perfume familiar.
- Na, não, não entendi.
Sua psicologa estava certa, ele não tinha jeito nenhum com as mulheres e provavelmente morreria sem sexo se dependesse de sua desenvoltura.
- O uísque, bobo!
- Ah! É Blue.
- Uau!
- Quer uma dose?
Ela acenou um "sim" com a cabeça fazendo um olhar de moça-pura-de-família, no segundo copo, ele já estava bêbado, no terceiro copo o bar girava, a loira não estava mais ao seu lado, estava na mesa de um "garanhão" com cara de conquistador barato e corpo marombado, sua garrafa de uísque fazia companhia aos dois "pombinhos". Carmo levantou-se da mesa, seu centro de gravidade parecia mudar aleatoriamente a cada passo que dava em direção a loira e a garrafa de uísque, realmente fazia tempo que ele não bebia, quando chegou perto, trombou com o tórax do marombado.
- O que quer aqui?
Carmo respondeu com a voz tremula:
- Miinha garrafa de uissqui.
- Já bebeu demais por hoje chará!
O marombado virou de costas e sentou-se. A loira riu olhando para a cara de Carmo, ele puxou o cara pela camisa, sentindo-se Clint Eastwood num filme de velho-oeste, Carmo estava desequilibrado, desesperado e para completar, estava bêbado como um gambá, seu bom senso simplesmente sumiu. Tomou uma surra, ficou estendido no chão e foi jogado na sarjeta, do lado de fora do bar por um dos seguranças, que aliás, era amigo do marombado.

Acordou no próprio vômito, que já estava seco e cheirava à malte do uísque, suas mãos ainda tremiam, seu corpo doía devido a surra e o sol nascendo girava e dançava junto com o céu e as ultimas estrelas. Procurou por sua carteira e seu celular, tudo no seu devido lugar. Assustou com uma voz:
- Noitada, hein? Vida de rico é outra coisa!
Era um mendigo que vigiava os carros, ele ria e ria muito. Carmo sentiu inveja daquele mendigo, como ele poderia estar tão feliz? Ele se esforçou para criar uma empresa, o mendigo estava largado na vida e fedia suor, mas parecia tão feliz! Ele o ajudou a levantar, mas assim que se pós de pé, começou novamente, seu ataque de pânico, tremia, e tremia muito, a ponto de não conseguir discar os números no celular, caiu no chão, desta vez com muito medo de morrer, não sabia se era um atque de nervos, se sua cabeça tinha sido atingida na surra ou se era algum tipo de reação bizarra ao álcool. Neste ponto, Carmo chegou ao que parece ser seu limite, se é que os seres humanos tem limites para a decadência, se antes não conseguia sentir nada, agora sentia tantas coisas, tantas dores que já não sabia o que doia dentro dele e o que doia fora, em vão, tentou definir sua situação, a única palavra que chegou perto disso foi: Desespero.
- Liga pra casa!
Disse ele atirando o celular na direção do mendigo, que sem saber bem como mexer no aparelho ficou desesperado gritando por socorro. Muita gente foi chegando, alguns sussurravam seu nome, sabiam que ele era uma figura importante e graças a isso foi levado de imediato e atendido rapidamente em um hospital público decadente.

A grande busca pelo prazer

Capítulo 1: Depressão

Depressão não é bem tristeza, muito pelo contrário, quando a pessoa se encontra em depressão profunda, ela agradece quando se sente triste, na verdade, ela agradece sentir qualquer coisa, alguns, ao ponto de se cortar para sentir dor. Dor é melhor que nada, depressão é ausência. Ausência de sentimentos, como se a vida não fizesse sentido algum, e na verdade, não faz, é uma vida sem alma. É assim que vive Carmo dos Santos, um bem sucedido empresário.

Carmo tem menos de quarenta anos, mas aparenta ter por volta de uns trinta. Exteriormente é bonito, loiro, olhos verdes, boca bem definida, queixo quadrado, barba por fazer, não malha, mas tem um corpo quase atlético para alguém que passa o dia sentado em um escritório. Estuda, e muito! Faz diversos cursos, a área de programação exige uma atualização quase que diária. E interiormente ele é, bem... como poderiamos definir alguém tão infeliz? Ele é... ele é... bem, ele não é! Não existe nada dentro dele, além de seu trabalho, que possa definí-lo inteiormente, a única coisa que ele consegue sentir, é um desejo muito forte de ser realizado, ele sempre sentiu isso, desde criança, achou que os estudos iriam realizá-lo. Balela! Realizou seus pais, mas não a si próprio. Depois achou que o dinheiro iria realizá-lo e bem, eu já falei que Carmo é um bilhonário dono de uma empresa de softwares? Mero detalhe!

Carmo é infeliz, não triste, mas deprimido. Ele compra uma Ferrari, se realiza por um tempo, precisamente os cinco primeiros minutos que acelera na pista, logo a infelicidade retorna. Depressão é assim, é um cheiro de merda que te persegue, as vezes você acha que está bem, mas quando para e respira fundo, lá está o cheiro. Para esquecer do cheiro podre, Carmo se enfiou em trabalho, ele não tem mais tempo para nada, apenas para seu trabalho, e quanto mais acumula dinheiro, mais trabalha, dinheiro para ele perdeu o valor, é só uma medida para continuar trabalhando. Conforto? Ele tem de sobra! Funcionários em uma mansão que de tão grande poderia ter seu próprio CEP. Tudo muito bem decorado, da mais alta tecnologia, ele não bebe pois está sempre trabalhando, mas come, e come bem, suas refeições são balanceadas, feitas pelos melhores chefes, indicadas pelos melhores nutricionistas, ele tem todo o ômega 3, magnésio e triptofano que seu corpo precisa para fabricar seus neurotransmissores da felicidade, como a cerotonina, mas Carmo está infeliz.
Ele se trata com o melhor psiquiatra da cidade, toma uma grande dose de remédio (o que minou sua libido), tem toda a assitência médica que precisa, top de linha, os antidepressivos e calmantes mais caros e eficiêntes do mercado, mas Carmo está infeliz.

Ele resolveu então procurar um terapeuta, buscou pelo melhor da cidade, e encontrou, na verdade é a melhor. Doutora Cíntia. Ela trata as madames da alta sociedade e as faz acreditar que suas vidas vazias e cheia de futilidades e puddles é a coisa mais maravilhosa do mundo.
Assim que deitou no divã, Cíntia já começou a cutucar as feridas abertas de Carmo e tocou no assunto preferido da maioria dos psicólogos: Sexo.
- Como anda sua vida sexual, Carmo?
Carmo ficou envergonhado, fazia muito tempo que não falava sobre sexo, principalmente com uma mulher, e eu já disse que ela é uma morena deslumbrante de seios fartos? Pois é!
- Não me relaciono desde a faculdade, relacionamentos atrasam meu trabalho.
Uma resposta comedida, não convenceu a astuta femme fatale.
- Certo, você se masturba com frequência?
Carmo corou, como poderia falar sobre masturbação com uma morena daquelas, na verdade ele pensou em dizer:
- Claro! Provavelmente me masturbarei hoje pensando em você e nas suas tetas.
Mas esse é o tipo de coisa que Carmo jamais diria, ele controlou sua timidez, aproveitou o fato de estar deitado de costas para ela e respondeu:
- Duas vezes por semana.
Mentiu, eram cinco!
Cíntia apenas disse com seu ar intelectual:
- Interessante.
Carmo não foi evasivo, ele está se esforçando para encontrar a raiz de sua depressão, mas também não foi o que poderíamos chamar de "cheio-de-palavras", sua primeira sessão foi o que Cíntia esperava, respostas curtas como "vejo sites pornôs", "me excito durante o dia" e "as vezes tenho sonhos eróticos". Nada que qualquer ser humano dotado de um órgão sexual não o faça, mas havia algo de estranho em Carmo. O assunto sexo não era um assunto confortável para ele, ele não fazia sexo com alguém que não fosse sua mão a anos. Cíntia pensou:
- Lógico que ele não vê sentido na vida! Nascemos para comer, beber, dormir e trepar, como pode haver sentido em uma vida sem sexo?
Ela matou a charada em uma conversa, de 10 minutos, mas ela é uma psicóloga astuta como uma raposa. Ela não poderia curar Carmo em uma única sessão, ele é rico! Óbvio que ela o enrolou por mais três mêses, perguntou sobre suas preferências e descobriu que Carmo tem um fetiche especial por sexo anal, ruivas, gosta muito de peitos, morre de curiosidade sobre como seria fazer sexo com uma afro descendente, vive espiando suas empregadas pelo buraco da fechadura e tem uma forte tendência a dominação apesar de seu perfil estar mais para escravo sexual. Mas ela prosseguiu falando sobre coisas como sua infância, seus pais, seus traumas, seu medo de altura e sua fixação por trabalho.

Na verdade, Cíntia teria enrolado mais Carmo, se este também não fosse um homem astuto, afinal de contas, ele é um empresário, no aniversário de 3 mêses de consultas, Carmo indagou.
- E então?
- E então o que?
- Qual meu diagnóstico? Tenho complexo de édipo ou alguma coisa do tipo? Tenho algum tipo de fobia social?
- Não é assim que isso funciona, existem lapsos de seu inconsciênte que ainda pretendo avaliar com mais calma, e você ainda tem se mostrado resistênte.
- Olha doutora, eu não sei do que está falando, eu sei que estou pagando uma nota pela hora de consulta, sei que quero ser feliz, sei que não estou feliz. Sou um homem de negócios, e meu negócio com você não está sendo lucrativo.
Carmo é uma pessoa prática, isso a pegou desprevenida, mas ela soube o que responder de imediato, um bom psicólogo sabe que o ponto fraco do ser humano é evidente: Seu ego!
- Estamos progredindo, não tem notado? Fizemos muitos progressos desde que começamos, Carmo. E olhe para você! Essa reação que teve hoje demostra o quanto evoluiu interiormente, está mais expressivo, sincero, comunicativo! Parabéns! Mas lamento dizer que precisamos de mais tempo para que você possa chegar onde tanto sonha.
Um homem de negócios e rico, sabe quando está sendo bajulado, para o infortúnio de Cíntia, Carmo percebeu isso e disse:
- Não! Não evolui interiormente, você é uma farsa! É dinheiro o problema, Cíntia? Eu pago! Quanto quer pela minha felicidade?
Neste momento Carmo começou a chorar, não de tristeza, mas de desespero, a ausência do prazer é algo insuportável, e Cíntia sentiu, pela primeira vez, pena de Carmo, e acima de tudo, questionou sua própria felicidade, ela persegue a anos dinheiro e poder através de seus estudos, será que ela estaria no mesmo caminho de Carmo? Essa empatia a fez querer provar a si mesma que poderia ser feliz, se conseguisse fazer Carmo feliz, ela conseguiria também sentir-se realizada por completo.
- Estou aqui para ajudar, Carmo! Vamos prometer um para o outro se esforçar mais, está bem?
Carmo suspirou como uma criança.
- Está bem.
- Nossa hora acabou, te vejo semana que vem, tenha um bom dia!
Carmo voltou para sua mansão, deitou em sua cama e chorou até que seus olhos não tivessem mais lágrimas, sentia um estranho alívio ao chorar, era uma sensação melhor do que aquele nó na garganta e vazio no peito. Carmo não passou a noite deprimido, estava triste e quase conseguia sentir alegria por estar triste.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Riqueza material

Muito previsível dizer que os ricos não possuem bondade no coração e riqueza espiritual. É um pensamento muito disseminado no ocidente. Eu encaro isso como uma espécie de inveja: "Já que sou pobre, pelo menos sou mais evoluído espiritualmente". Ou: "Essa pessoa é rica, tem tudo fácil, eu tive que aprender com a pobreza". Neste ponto sempre discordei do cristianismo. "Mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no céu." palavras de Cristo. Vejo Cristo como um grande comunista que gostava muito de causar, e neste ponto ele foi muito infeliz, não é porque ele foi quem foi que ele esteve isento de escolher mal as palavras, não acredito em contos de fadas com pessoas perfeitas, acho Jesus perfeito justamente porque ele foi humano. Mais estranho é a igreja católica pregar isso, enquanto os Papas dormem em camas de ouro maciço. As igrejas evangélicas pregarem isso enquanto os bispos nadam em dinheiro e mantém contas absurdas em paraísos fiscais: Eles são hipócritas.
Note que não estou julgando eles por serem ricos, estou julgando eles por serem hipócritas. O povo merece sofrer em miséria como Cristo sofreu e isso os purificará para o paraíso, mas o Papa tem todas as mordomias possíveis, se o Papa é o representante de Deus na Terra, tal como foi Jesus, e se os ensinamentos são esses, então isso está errado, ou mudam-se os ensinamentos ou muda-se a atitude do Papa, incrível como os católicos não fazem esse tipo de questionamento, toda a igreja católica estaria falida se os católicos abrissem seus olhos.
Existem mestres que fizeram grandes fortunas ajudando as pessoas, mas que nunca pregaram a pobreza, muito pelo contrário, sempre pregaram a fartura. Uma coisa é se apegar ao dinheiro e aos bens materiais, outra coisa é negar os bens materiais e negar que eles trazem conforto. E o engraçado é que esses mestres, como Osho e Gasparetto são crucificados pelas igrejas e o motivo apontado são as grandes fortunas que eles acumularam com seu ótimo trabalho com as pessoas.
Qual o problema em ser bem pago? Muitas pessoas param de seguir ótimos mestres por motivos como este, é muito mais fácil questionar algo que poucos entendem e muito mais cômodo não questionar instituições que estão no poder a anos. Está na hora de pensar por conta própria, e decidir o que te faz bem. Você gosta de pobreza ou de riqueza? Quer se espelhar em pessoas bem sucedidas ou em pessoas hipócritas?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Blasfêmea

Dois amigos viviam em harmonia num pequeno vilarejo, cada um com sua esposa e filhos. Deus decidiu que estava na hora de matar suas famílias, e assim o fez. Enviou uma tempestade violenta, os únicos sobreviventes foram os bons amigos.
Um deles reagiu com muita calma, ele segurou seus sentimentos e até agradeceu a Deus.
Ele se ajoelhou e disse:
-Obrigado Senhor, pela oportunidade de crescimento, pelo sofrimento que me enviou, e por eu estar vivo, cuide bem de minha família, amo muito Você!
O outro não se segurou, chorou muito, gritou, suas mãos sangravam enquanto ele socava o chão e dizia:
-Maldito seja o nome do Senhor! Seu imbecil, meu filho tinha apenas dois anos, como pode ser tão insensível! Você só não é um Corno porque não tem esposa, só não é um Filho da puta porque não tem mãe!
Por coincidência, os dois homens morreram dez anos depois, no mesmo dia, e foram para os portões do Paraíso juntos, onde encontraram o Criador.
Deus disse:
-Você aí, blafemou contra meu nome, quando eu matei toda sua família, pode entrar, querido amigo, sua esposa e filhos te esperam.
-Obrigado Senhor, eu estava muito nervoso aquele dia, mas passou.
Deus olhou para o outro homem e disse:
-Você vai para o inferno.
Ele sem entender, questionou:
-Mas Senhor, fui tão compreensivo, tão maduro, aceitei de braços abertos minha perda, o outro homem profanou seu santo nome, isso é injusto!
Deus respondeu:
-Eu sei o que é justo. Ele foi autêntico, brigou comigo, expressou o que seu coração sentia, não se reprimiu, só pode estar perto de Deus quem encontra sua verdade interior, mentir para Deus é impossível, não me importo com o que a boca fala, palavras são invenções suas, eu escuto o coração. E você, por não ter se expressado, guardou mágoas, mentiu para si mesmo, mentir para si mesmo é mentir para Deus, não somos íntimos, você não foi sincero comigo, seu lugar é o inferno, quem gosta de falsidade é o Tinhoso.

Se você for sincero consigo mesmo, o Paraíso estará muito próximo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O intelectual, o religioso e o místico

A idéia de um deus, de tao, do infinito é realmente inaceitável para a mente.
Quando pensamos nisso, parece uma grande tolice, isso tudo subestima a inteligência humana.
Porém, quando se experencia, quando se sente, parece tolice não aceitar isso, parece subestimar a inteligência pensar de um modo diferente.
Nesse momento existe uma grande integração entre a razão e a experiência, entre o sentir e o raciocinar, e desse modo encontramos uma inteligência mais verdadeira, mais pessoal, mais autêntica.
A verdadeira inteligência, passa do experenciar, do sentir, para a razão.
Essa é a diferença entre um intelectual, um religioso e um místico: O intelectual possui a razão, mas ignora o sentir, um religioso sente, mas ignora sua razão, o místico sente e entende. O místico se esforça para atingir o que é compreensivo, mas também busca o que não se pode compreender.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mais um pedacinho de infinito.



O grande problema é delimitar fronteiras onde elas não são necessárias. O sobrenatural é apenas algo natural ainda não racionalizado, porém, se analisarmos até mesmo com uma mente natural e racional, veremos que o sobrenatural faz parte de nossa ciência. O que é o tempo senão uma força sobrenatural e inexplicável? A ciência diz que todo nosso universo veio de uma grande explosão, mas essa explosão aconteceu como? Espontaneamente? Espontaneamente é algo não explicável, portanto sobrenatural. Não havia espaço nem tempo antes dessa grande explosão, havia apenas o nada. O que é o nada? Ele não pode ser coisa alguma, ele é apenas um conceito abstrato, tal como é o infinito, tal como é Tao. O nada é previsto dentro da ciência, ele é aceitável, faz parte não apenas de uma teoria, mas sim da principal das teorias, a teoria da origem de tudo.

Segundo a ciência moderna, tudo veio do nada. Lao Tsé já o sabia desde 2600 anos antes de cristo. Como ele sabia disso? Como ele conseguia ver tão a frente de sua época? Simplesmente intuição! O que a ciência levou tempo para provar com matemática, ele sabia sentindo a vida ao seu redor, ele sabia com sensibilidade. Se o ser humano tivesse desenvolvido a capacidade de ser um com o todo, não haveria necessidade de calcular o Big Bang, nós apenas saberíamos.
Existem cientistas procurando Deus em fórmulas matemáticas, eu não duvido que possam prová-lo assim, mas o que isso significaria, eles lhe mostrariam uma grande fórmula cheia de letras e números e diriam "isso é Deus, adore-o". Para mim isso é tão infantil quanto acreditar no velho barbudo que nos espera num trono distante e nos julga como um carrasco cruel. Ambos são racionais, ambos são limitados a finitude humana. Se Deus, se o Tao, pudessem ser provados, eles deixariam de ser o que são. Quer um exemplo melhor? Consegue provar o infinito? Você só poderia provar a existência do infinito se conseguisse percorre-lo completamente. Não adianta percorrer 1 milhão de anos luz e dizer "eu olhei mais adiante e vi que não tinha fim", isso dentro da razão é inaceitável, para que algo exista você precisa de provas, mas para provar o infinito você teria que percorrer o infinito ou encontrar algo que já o tenha percorrido, mas se algo o percorrer significa que ele tem fim, então entramos em um paradoxo. Logo o infinito não existe! Cientificamente ele não deveria existir, acreditar nele (ainda que a matemática o prove) é uma questão de fé, assim como acreditar no nada é uma questão de fé, acreditar no universo todo é uma questão de fé, fé para quem não sente, quem consegue ser um com o todo não precisa de fé, para ele o infinito, o nada, Tao, Deus, não são conceitos distantes e imaginários, são palpáveis, não pelos sentidos finitos do corpo humano, mas pela intuição, pelo que os místicos chamam de "terceira visão".

Os religiosos costumam ter fé, eles apenas usam o sobrenatural para explicar o que a ciência ainda não tocou, e aí mora toda a guerra ciência versus religião. Os cientístas também costumam ter fé, eles acrecitam em Big Bang, na existência do nada, acreditam em tudo que é natural e negam religiosamente qualquer coisa que ainda não tenha entrado no seu campo de visão finito, estão limitados ao que sabem e ignoram sua própria ignorância, até que provem o contrário. Uma pessoa mística apenas sabe. Sabe, mas nem sempre pode provar racionalmente.
O verdadeiro místico, não se usa de misticismo pra explicar nada, nem mesmo a morte, ser místico não é acreditar em algo, mas experenciar algo. Religiosos acreditam em deuses distantes, que os esperam em lugares distantes ao qual só podemos chegar depois da morte, religiosos não vivem no presente. Vivem uma fantasia, um faz de conta, apostam alto nessa fantasia, apostam toda sua vida nisso, literalmente. Se você perguntar a um monge taoísta, ou um monge zen, "O que acontecerá comigo quando eu morrer?" ele provavelmente responderá "Não sei!". Não é a toa que o ocidente considera o taoismo e o budismo como religiões ateístas, mas elas não são exatamente ateístas! Eles não acreditam em Deus, isso é verdade, mas eles vivem Deus, eles são deuses de si mesmos, eles sentem deus.

Você não pode percorrer o infinito para prová-lo, mas você certamente está dentro dele, é parte dele, pode sentí-lo. Tao não é um deus distante, Tao é o próprio infinito, aliás, não existe Tao no futuro, Tao só pode ser experenciado no aqui e agora, só se sente ele com meditação, com deleite, com o abandono da fé e também o abandono da razão, com o abandono, mesmo que momentâneo tanto da ciência, quanto da religião. Ele não existe em teorias, não é uma espera. É o sobrenatural que se pode tocar, o natural que não se pode explicar. O próprio paradoxo criador do universo. O "nada" dos cientistas, o espírito santo dos católicos, o Zen dos budistas. Ele é o que não se pode ser. Não posso explica-lo, as palavras são tão limitadas que me desespero me desdobrando em mil argumentos, mal consigo senti-lo no meio da poluição de minha própria mente racional, cheia de crenças e ego, sua simplicidade e pureza é tamanha, que minha mente complexa por vezes o ignora, mas espero ser uma seta que o indica, a você e a mim mesmo, ele está aqui e agora.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A visão assustadora de Naropa (Um conto por Osho)


"A verdade é sua própria experiência, sua própria visão. Mesmo que eu tivesse visto a verdade e a contasse a você, na hora que eu a contar, ela irá se tornar uma mentira para você, não uma verdade. Para mim era uma verdade, para mim ela veio através dos olhos. É minha visão. Mas não será sua visão, será uma coisa emprestado. Será uma crença, será conhecimento, mas não saber. E se você crer nisso, estará acreditando numa mentira.

Agora lembre-se. Mesmo uma verdade torna-se uma mentira se entrar em você pela porta errada. A verdade tem que entrar pela porta principal, através dos olhos. A verdade é uma visão, precisa ser vista com seus próprios olhos.

Naropa era um grande erudito, um grande sábio, tinha dez mil discípulos. Um dia estava sentado cercado por milhares de escrituras – antigas, bem antigas e raras. Subitamente ele caiu no sono, devia estar cansado, e teve uma visão.

Ele viu uma mulher muito velha, bem feia, horrível – uma bruxa. A feiúra dela era tal que ele começou a tremer no sonho. Era tão nauseante que ele queria fugir – mas fugir para onde, para onde ir?

Ele foi apanhado, como que hipnotizado pela velha bruxa. Os olhos dela eram como magnetos.

“O que você está estudando?” perguntou a velha.

Ele disse, “Filosofia, religião, epistemologia, linguagem, gramática, lógica.”

O velha perguntou de novo, “Você entende tudo isso?”

Naropa disse, “É claro... Sim, eu as compreendo.”

“Mas você compreende as palavras, ou o sentido?” A mulher perguntou novamente.

Milhares de perguntas foram perguntadas a Naropa na vida dele – milhares de estudantes sempre perguntando, inquirindo. Mas ninguém havia perguntado isso: se ele entendia as palavras ou o sentido. E os olhos da mulher eram penetrantes, olhos que iam até as profundezas de seu ser, era impossível mentir para ela. Para qualquer outro ele teria dito, “É claro que compreendo o sentido,” mas para essa mulher, essa mulher de aparência medonha, ele tinha que dizer a verdade. Ele disse, “Eu entendo as palavras.”

A mulher ficou muito feliz. Começou a dançar e a rir, e a feiúra dela foi transformada; uma beleza sutil começou a surgir nela. Pensando, “Eu a fiz tão feliz. Porque não fazê-la ainda mais feliz?” Naropa então disse, “E sim, eu também entendo o sentido.”

A mulher parou de rir, parou de dançar. Ela começou a chorar e a lamentar-se e toda sua feiúra voltou, mil vezes pior. Naropa perguntou: “Porque você está chorando e lamentando-se? E por que estava antes rindo e dançando?”

Ela respondeu: “Eu fiquei feliz porque um grande erudito como você não havia mentido. Mas agora estou chorando e lamentando porque você mentiu para mim. Eu sei – e você sabe – que você não compreende o sentido.”

A visão desapareceu e Naropa havia sido transformado. Ele fugiu da universidade e nunca mais tocou numa escritura novamente na sua vida. Tornou-se completamente ignorante, pois compreendeu que a mulher não era ninguém de fora, era somente uma projeção. Era o próprio ser de Naropa, que, através do conhecimento, havia se tornado tão feio. Bastou esse bocado de entendimento, a de que ele não compreendia o sentido, para que a feiúra se transformasse em algo belo.

A visão de Naropa é muito significativa. A menos que você sinta que o conhecimento é inútil, você nunca estará em busca da sabedoria. Você irá carregar a moeda falsa, pensando tratar-se de um tesouro verdadeiro. Você precisa perceber que o conhecimento é uma moeda falsa, pois não é saber, não é entendimento. No máximo o conhecimento é algo intelectual: a palavra foi entendida, mas o sentido se perdeu."

Osho

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Não faz sentido...



A vida não precisa fazer sentido se você está bem, se você procura algum sentido é porque lhe falta a capacidade de sentir. Quando estamos satisfeitos, pouco importa se a vida faz sentido ou não, apenas desfrutamos e sendo assim tudo milagrosamente faz um enorme sentido.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tao

O modo de visão do ser humano é limitado. Hora olhamos com olhos científicos, hora olhamos com olhos religiosos, e ambos deixam lacunas, lacunas essas que jamais serão preenchidas, por isso eu me identifico com o tao, por isso me identifico com o zen, o tao e o zen são as próprias lacunas, é o próprio vazio é o modo de entender sem entender, é aceitar a incapacidade humana em dar todas as respostas. Todo nosso sofrimento consiste nessa ansiedade pelo entendimento, nossa mente é geneticamente programada para encontrar respostas, para enxergar problemas, sempre que encontramos uma resposta ela é na verdade uma nova pergunta, o zen é um modo de não perguntar, de dar um tempo e relaxar e desse modo poder sentir o mundo, poder desfrutar, poder ter um pouco de paz, a paz só existe no aqui agora, as perguntas nunca acontecem no aqui agora, os "porques" fazem parte do raciocínio, estar presente no presente é cessar as palavras, as palavras existem para descrever e quando descrevemos deixamos de sentir e passamos a explicar. Por isso uma das passagens mais belas dentro dos poemas de Lao Tsé diz que o tao que se pode explicar já deixa de ser tao, isso faz todo o sentido.
Outro aspecto que me encanta no tao é a visão cósmica única que Lao Tsé lança, e o mais fantástico é que essa visão nunca se desgasta, na bíblia temos o mito da criação em sete dias, hoje isso está antiquado, não faz mais sentido, a visão taoísta nunca ficará antiquada simplesmente porque é verdadeira, e se existe algo belo na verdade é o fato dela ser tão poderosa a ponto de ser imutável, a lei da gravidade nunca deixará de existir, é uma verdade, você pode não acreditar na gravidade? Conhece alguém que escolheu não acreditar na gravidade e saiu por aí voando? A bíblia e muitas outras religiões giram em torno do "Criador", é uma visão muito bela, e de certo modo existe um pouco de sentido nisso, não é uma mentira, é uma meia verdade. Criador é algo muito limitado para descrever o universo para alguém tão simples como Lao Tsé, é um argumento não uma verdade, uma teoria, Lao Tsé era um homem muito simples, e em sua simplicidade ele conseguir ser grande, ele entendeu que ninguém criou nada, tudo sempre existiu, criar e nascer são conceitos do nosso pequeno mundo, de nossa mente limitada, sempre existir é algo cósmico, algo que não podemos entender. Einsten revolucionou a física porque mudou os parâmetros, as pessoas olhavam a física e comparavam a inércia dos planetas com a inércia das leis físicas da Terra, mas essa física não conseguia calcular algumas órbitas com perfeição, por algum motivo ela era limitada, Einsten entendeu que estavam usando parâmetros limitados, porque estavam olhando para dentro da Terra e tentando usar as mesmas regras daqui de dentro para todo o universo, é um grande egocentrismo humano que conduzia a esses erros de cálculos, a correção foi feita e os cálculos fizeram sentido quando aplicaram a teoria da relatividade. Talvez Einsten não soubesse disso (eu prefiro acreditar que ele sabia), mas a mensagem dele é a mesma mensagem de Lao Tsé, uma mensagem cósmica, ele disse que é impossível olhar para o infinito utilizando os parâmetros finitos da nossa humilde existência. Tanto Einsten quanto Lao Tsé foram grandes homens porque foram humildes, aceitaram sua natureza finita.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sinto logo existo!



O que dá sentido a nossa vida é aquilo que se sente, o que você pensa, simplesmente não existe, é apenas uma ilusão. O pensar não te faz vivo, o que te faz vivo é o sentir. Experimente viver sem sentir o mundo, apenas racionalizando o mundo, imagine como seria a vida. Você não precisaria sair de casa para experenciar nada, você simplesmente abre uma enciclopédia e lê que a neve é gelada, que o sol é quente, que as flores são perfumadas e que os espinhos doem, mas nada disso fará sentido, seriam só palavras. Você teria todos os pensamentos, mas nenhum sentido e simplesmente não haveria motivos para continuar vivo.
É difícil aceitar e entender isso, porque toda nossa educação foi baseada em letrinhas estampadas num papel, nossa educação não foi baseada em experiencia, em sentir, aprendemos a pensar, mas ninguém nos ensinou a sentir e o sentir é sem dúvida alguma o mais importante. Quando falo para você, lembra-se da sua época da escola, sua memória remete a fórmula de bhaskara ou as amizades e situações inusitadas que vivenciou?
O pensar é morto! Toda filosofia é morta!
Portanto, não procure viver escravo do pensar, não somos escravos da cabeça, mas somos, sem dúvida nenhuma, escravos do experenciar e do sentir, simplesmente não tem como viver sem sentir as coisas. Não é a toa que quando estamos tristes, dizemos que a vida não tem sentido, não tem mesmo! Sentido vem de sentir, como pode ter sentido uma vida de idéias, a vida só é concebível no plano das atitudes, a vida só existe para os ousados e corajosos.
Sinta muito e pense pouco!
"Penso logo existo" é uma mentira, vamos corrigir isso, vamos entender que a vida funciona assim: Sinto logo existo!

terça-feira, 23 de março de 2010

A não-violência

A violência é a forma mais primitiva de resolver nossos impasses, antes de inventarem as palavras, existia a violência. O homem primitivo lutava violentamente por uma posição social, por seu alimento, assim como os lobos lutam para definir quem é o alfa, assim como eles caçam. Então, não podemos negar nunca que a violência faz parte da natureza de nosso planeta.
Hoje a violência se dá de uma maneira mais amena, mais mascarada. Você não precisa mais caçar para se alimentar, não precisa olhar nos olhos de sua presa e ouvi-lá urrar de dor ao sentir sua lança penetrando seu coração, não precisa sair no soco com o semelhante para definir quem vai liderar o grupo, mas os seres humanos ainda comem carne, ainda lutam por liderança, muitas vezes até mesmo covardemente, "puxando o tapete". Isso tudo é primitivo e animalesco. É bem natural e o problema é que essa naturalidade é usada como um argumento para que tudo continue como está. Precisamos evoluir! Justamente por ser natural é que precisamos vencer isso, vencer a violência.
É difícil permanecer na não-violência, simplesmente porque tudo está contra a não-violência. Quando nos tornamos mais pacíficos, certamente tentarão nos passar para trás, ainda estamos vivendo em um mundo onde bondade é confundida com fraqueza. Portanto, não desperdice seus argumentos com pessoas de espírito fraco, deixe elas em seu mundo de violência, as vezes o silêncio é a melhor resposta. Porém, algumas vezes não haverá escapatória, nesses momentos, use a violência sem ser usado por ela, sem sentir orgulho disso. O engraçado é a cara de surpresa das pessoas, ao ver uma pessoa pacífica precisando recorrer a este recurso. A mente humana é cheia de estereótipos, negue todos! Ninguém é totalmente isso ou totalmente aquilo, seja vegetariano, mas grite quando for necessário, argumente até o último instante para evitar um conflito violênto, abaixe a cabeça e peça desculpas, mesmo sabendo que tem a razão, mas se for inevitável, dê o primeiro soco.
A vida é assim mesmo, as pessoas mais espiritualizadas são também, as mais surpreendentes e imprevisíveis.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Noite negra da alma


É muito raro isso que farei agora. Resolvi escrever, não porque estou bem, mas sim, porque estão passando novamente pela noite negra de minha alma. Estou deprimido neste momento, mas a vida é assim: um dia estamos por cima, outro dia estamos por baixo. O importante é aprender a se tranquilizar nos dias ruins, aproveitar as lições que eles nos trazem, o universo é inteligente, as quedas são importantes, ensinam muito, até o dia em que não precisaremos mais cair, mas por hora, estou no chão.
O que sempre me salva nesses momentos é saber que tudo passa, por pior que seja a coisa, ela passa, também é importante saber, que ninguém vencerá essa batalha por você, eu mesmo procuro auxílio por todos os lados, a depressão nos torna carentes, mas isso não ajuda em nada, a chave para retornar a luz, está dentro do coração! É bom conversar para desabafar, mas ninguém pode viver por você e a noite negra da alma é uma experiência muito pessoal, muito íntima. Existem forças externas tentando nos derrubar a todo o momento, a felicidade não é interessante para este mundo, não do jeito que ele está. O mundo quer fracos, teme os fortes e a infelicidade nos torna apáticos e sem vida, tira nossas vontades, mas essas forças são externas, absolutamente nada nem ninguém controla sua vida e entenda por "sua vida" principalmente seu interior, a menos que você permita. O exterior é reflexo do seu interior, se ele nao vai bem, é porque existe algo por dentro que precisa ser vencido, uma vez pleno e renovado interiormente, tudo na sua vida flui, a partir de sua luz interior, você pode illuminar toda sua vida e nada nem ninguém interferirá nisso enquanto você se mantiver elevado. Sua vida é um reflexo do que você sente. Mas, a noite negra da alma chega e nos leva tudo, deixando-nos a sós com a gente mesmo, deixando a gente no nada, no vazio, se debater é inútil. Aceitar a sua situação, aceitar o vazio e o nada é o primeiro passo. Na verdade a aceitação é o primeiro passo para tudo, aceitação é amor, quem aceita não se revolta, simplesmente se centra e é neste momento que a primeira fagulha de luz aparece, segure essa fagulha, ela é a chave para fora desse vazio.
Então surge a rebeldia, não confunda com revolta, revolta é energia convertida em ódio, rebeldia é energia convertida em amor-próprio. Rebelar-se contra a situação é uma etapa essencial, é sua força interior dizendo que você, pode e será melhor do que a situação, por mais terrível que ela pareça, é seu grito interior, seu rugido, você dominando sua vida e gerando novamente prosperidade em todos as áreas, sem que nada nem ninguém possa atingí-lo, uma pessoa de bem com a vida, influencia tudo a sua volta positivamente, é inabalável, e temos esse poder.
A noite negra da alma, é justamente a ausência desse poder, a ausência de você em você.
Mas a fagulha de luz, nunca tarda a chegar!

"Mentalizar o Mal é Perigoso

Quando o homem não mentaliza o mal, o mal não lhe acontece. Deixa o mal no berço da maldade, e o mal não desgraça o homem. Ainda que o sábio conheça o seu valor, não exibe valores. Ainda que conheça a sua dignidade, não reclama dignidades. Ele conhece as suas possibilidades, por isso não exorbita dos seus limites."
TAO TE KING - LAO-TSE

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal!

Você é seu salvador, seu próprio Jesus Cristo.
Que neste natal, você comemore o nascimento de sua luz interior. Jesus nunca salvou e nem nunca salvará ninguém, ele sempre disse "você se salvou". Abandone o cristianismo, se seguir mestres fosse bom, Jesus teria seguido alguém!
Evolua e se valorize!