Capítulo 1: DepressãoDepressão não é bem tristeza, muito pelo contrário, quando a pessoa se encontra em depressão profunda, ela agradece quando se sente triste, na verdade, ela agradece sentir qualquer coisa, alguns, ao ponto de se cortar para sentir dor. Dor é melhor que nada, depressão é ausência. Ausência de sentimentos, como se a vida não fizesse sentido algum, e na verdade, não faz, é uma vida sem alma. É assim que vive Carmo dos Santos, um bem sucedido empresário.
Carmo tem menos de quarenta anos, mas aparenta ter por volta de uns trinta. Exteriormente é bonito, loiro, olhos verdes, boca bem definida, queixo quadrado, barba por fazer, não malha, mas tem um corpo quase atlético para alguém que passa o dia sentado em um escritório. Estuda, e muito! Faz diversos cursos, a área de programação exige uma atualização quase que diária. E interiormente ele é, bem... como poderiamos definir alguém tão infeliz? Ele é... ele é... bem, ele não é! Não existe nada dentro dele, além de seu trabalho, que possa definí-lo inteiormente, a única coisa que ele consegue sentir, é um desejo muito forte de ser realizado, ele sempre sentiu isso, desde criança, achou que os estudos iriam realizá-lo. Balela! Realizou seus pais, mas não a si próprio. Depois achou que o dinheiro iria realizá-lo e bem, eu já falei que Carmo é um bilhonário dono de uma empresa de softwares? Mero detalhe!
Carmo é infeliz, não triste, mas deprimido. Ele compra uma Ferrari, se realiza por um tempo, precisamente os cinco primeiros minutos que acelera na pista, logo a infelicidade retorna. Depressão é assim, é um cheiro de merda que te persegue, as vezes você acha que está bem, mas quando para e respira fundo, lá está o cheiro. Para esquecer do cheiro podre, Carmo se enfiou em trabalho, ele não tem mais tempo para nada, apenas para seu trabalho, e quanto mais acumula dinheiro, mais trabalha, dinheiro para ele perdeu o valor, é só uma medida para continuar trabalhando. Conforto? Ele tem de sobra! Funcionários em uma mansão que de tão grande poderia ter seu próprio CEP. Tudo muito bem decorado, da mais alta tecnologia, ele não bebe pois está sempre trabalhando, mas come, e come bem, suas refeições são balanceadas, feitas pelos melhores chefes, indicadas pelos melhores nutricionistas, ele tem todo o ômega 3, magnésio e triptofano que seu corpo precisa para fabricar seus neurotransmissores da felicidade, como a cerotonina, mas Carmo está infeliz.
Ele se trata com o melhor psiquiatra da cidade, toma uma grande dose de remédio (o que minou sua libido), tem toda a assitência médica que precisa, top de linha, os antidepressivos e calmantes mais caros e eficiêntes do mercado, mas Carmo está infeliz.
Ele resolveu então procurar um terapeuta, buscou pelo melhor da cidade, e encontrou, na verdade é a melhor. Doutora Cíntia. Ela trata as madames da alta sociedade e as faz acreditar que suas vidas vazias e cheia de futilidades e puddles é a coisa mais maravilhosa do mundo.
Assim que deitou no divã, Cíntia já começou a cutucar as feridas abertas de Carmo e tocou no assunto preferido da maioria dos psicólogos: Sexo.
- Como anda sua vida sexual, Carmo?
Carmo ficou envergonhado, fazia muito tempo que não falava sobre sexo, principalmente com uma mulher, e eu já disse que ela é uma morena deslumbrante de seios fartos? Pois é!
- Não me relaciono desde a faculdade, relacionamentos atrasam meu trabalho.
Uma resposta comedida, não convenceu a astuta femme fatale.
- Certo, você se masturba com frequência?
Carmo corou, como poderia falar sobre masturbação com uma morena daquelas, na verdade ele pensou em dizer:
- Claro! Provavelmente me masturbarei hoje pensando em você e nas suas tetas.
Mas esse é o tipo de coisa que Carmo jamais diria, ele controlou sua timidez, aproveitou o fato de estar deitado de costas para ela e respondeu:
- Duas vezes por semana.
Mentiu, eram cinco!
Cíntia apenas disse com seu ar intelectual:
- Interessante.
Carmo não foi evasivo, ele está se esforçando para encontrar a raiz de sua depressão, mas também não foi o que poderíamos chamar de "cheio-de-palavras", sua primeira sessão foi o que Cíntia esperava, respostas curtas como "vejo sites pornôs", "me excito durante o dia" e "as vezes tenho sonhos eróticos". Nada que qualquer ser humano dotado de um órgão sexual não o faça, mas havia algo de estranho em Carmo. O assunto sexo não era um assunto confortável para ele, ele não fazia sexo com alguém que não fosse sua mão a anos. Cíntia pensou:
- Lógico que ele não vê sentido na vida! Nascemos para comer, beber, dormir e trepar, como pode haver sentido em uma vida sem sexo?
Ela matou a charada em uma conversa, de 10 minutos, mas ela é uma psicóloga astuta como uma raposa. Ela não poderia curar Carmo em uma única sessão, ele é rico! Óbvio que ela o enrolou por mais três mêses, perguntou sobre suas preferências e descobriu que Carmo tem um fetiche especial por sexo anal, ruivas, gosta muito de peitos, morre de curiosidade sobre como seria fazer sexo com uma afro descendente, vive espiando suas empregadas pelo buraco da fechadura e tem uma forte tendência a dominação apesar de seu perfil estar mais para escravo sexual. Mas ela prosseguiu falando sobre coisas como sua infância, seus pais, seus traumas, seu medo de altura e sua fixação por trabalho.
Na verdade, Cíntia teria enrolado mais Carmo, se este também não fosse um homem astuto, afinal de contas, ele é um empresário, no aniversário de 3 mêses de consultas, Carmo indagou.
- E então?
- E então o que?
- Qual meu diagnóstico? Tenho complexo de édipo ou alguma coisa do tipo? Tenho algum tipo de fobia social?
- Não é assim que isso funciona, existem lapsos de seu inconsciênte que ainda pretendo avaliar com mais calma, e você ainda tem se mostrado resistênte.
- Olha doutora, eu não sei do que está falando, eu sei que estou pagando uma nota pela hora de consulta, sei que quero ser feliz, sei que não estou feliz. Sou um homem de negócios, e meu negócio com você não está sendo lucrativo.
Carmo é uma pessoa prática, isso a pegou desprevenida, mas ela soube o que responder de imediato, um bom psicólogo sabe que o ponto fraco do ser humano é evidente: Seu ego!
- Estamos progredindo, não tem notado? Fizemos muitos progressos desde que começamos, Carmo. E olhe para você! Essa reação que teve hoje demostra o quanto evoluiu interiormente, está mais expressivo, sincero, comunicativo! Parabéns! Mas lamento dizer que precisamos de mais tempo para que você possa chegar onde tanto sonha.
Um homem de negócios e rico, sabe quando está sendo bajulado, para o infortúnio de Cíntia, Carmo percebeu isso e disse:
- Não! Não evolui interiormente, você é uma farsa! É dinheiro o problema, Cíntia? Eu pago! Quanto quer pela minha felicidade?
Neste momento Carmo começou a chorar, não de tristeza, mas de desespero, a ausência do prazer é algo insuportável, e Cíntia sentiu, pela primeira vez, pena de Carmo, e acima de tudo, questionou sua própria felicidade, ela persegue a anos dinheiro e poder através de seus estudos, será que ela estaria no mesmo caminho de Carmo? Essa empatia a fez querer provar a si mesma que poderia ser feliz, se conseguisse fazer Carmo feliz, ela conseguiria também sentir-se realizada por completo.
- Estou aqui para ajudar, Carmo! Vamos prometer um para o outro se esforçar mais, está bem?
Carmo suspirou como uma criança.
- Está bem.
- Nossa hora acabou, te vejo semana que vem, tenha um bom dia!
Carmo voltou para sua mansão, deitou em sua cama e chorou até que seus olhos não tivessem mais lágrimas, sentia um estranho alívio ao chorar, era uma sensação melhor do que aquele nó na garganta e vazio no peito. Carmo não passou a noite deprimido, estava triste e quase conseguia sentir alegria por estar triste.
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