
Capítulo 3: Frustração
Acordou na cama do hospital, não estava só, na cama ao lado um velho mal vestido tossia seco, pensou em pedir para levá-lo para o hospital particular de seu convênio médico, mas já havia soro aplicado em seu braço, era mias prátiico ficar. Um doutor bigodudo entrou na quarto, fez algumas perguntas de rotina e descobriu todo o drama de Carmo, disse que ele ia ficar em observação por um tempo e que precisaria tirar uma chapa de sua cabeça, precisavam saber se os sintomas eram psicológicos ou se eram algum trauma pela surra da noite passada. Quando o doutor saiu, Carmo resmungou:
- Mais essa agora, estou preso neste lugar decadente.
O velho na cama ao lado ouviu, deu uma tosse seca e disse com uma voz rouca e moribunda:
- Quer um livro?
Carmo o ignorou, estava com nojo do velho, mas ele não desistiu:
- Perguntei se quer um livro? É o melhor companheiro para passar o tempo.
- Não, obrigado.
- Tem certeza? Nós vamos ficar horas aqui neste quarto e aqui não tem televisão.
Horas em um lugar sem televisão, precisava dar alguns telefonemas, mas nada que o entretesse como seu trabalho, era certo que ficaria longe do escritório por um bom tempo, não havia muito o que fazer, não havia com o que se ocupar, e isso significaria que teria que se encarar, teria que passar muito tempo consigo mesmo, aceitou o livro:
- Tem razão, o que você tem aí?
O velho puxou uma bolsa esfarrapada, haviam muitos livros lá dentro, ele começou a escolher como quem escolhe um presente, finalmente separou um dos livros e disse:
- Este! Sinto que foi feito para você!
Ele riu e depois tossiu seco novamente. Carmo pegou o livro, com um pouco de nojo, mas não poderia ser pior do que passar horas consigo mesmo. O nome do livro era "Sexo tântrico: A arte do prazer". Ele olhou para o velho com uma cara de espanto. Ou ele estava ficando louco, ou havia algum sinal místico alí, como se o destino tivesse se encarregado de trazer para ele as respostas que tanto procura em um só livro. Talvez sua psicóloga estivesse certa, e talvez aquele livro poderia conduzí-lo até a saída para suas aflições.
Resolveu não fazer as ligações e fingir que estava morto, começou a ler as páginas amarelas e secas do livro. O autor era um gurú chamado Raj, segundo o prefácio, ele vivia no país, mas era nascido na Índia. Havia, logo de cara, muita filosofia de vida, não se tratava apenas de sexo ou de prazer, havia algo profundo alí, uma idéia religiosa aversa ao moralismo ocidental, tudo começava a fazer sentido.
Carmo devorava o livro como um cão faminto engole todos os restos de comida antes que alguém o enxote. Precisava extrair o máximo de informações antes de ser atendido. Não funcionou, foi atendido rapidamente, abandonou o livro em cima de seu leito com um peso no coração. As chapas não revelaram nada anormal, estava saudável, o que não foi exatamente uma boa notícia, tinha esperanças de encontrar um tumor no seu cérebro que justificasse seus surtos e sua falta de vida. Ao voltar para o quarto, o velho já não estava mais lá, porém esqueceu o livro tal como ele o deixou, ou talvez tenha o dado para Carmo e de fato, aquele foi o melhor presente que ele ganhou desde que outro bom velhinho o deu uma bicicleta no natal.
Nos dias seguintes, havia algo diferente em Carmo além dos óculos escuros que escondiam seu olho roxo, havia esperança. Leu o livro duas vezes e se apegou a filosofia de vida do gurú, estava disposto a mudar, pronto para um recomeço, naquela semana ele conseguiu dormir e não teve outros surtos, sábado pegou o jornal e abriu na parte de classificados, procurava uma acompanhante.
Circulou alguns anúncios, mas nada que o chamasse muito a atenção, algumas se diziam modelos com experiência no ramo, outra se auto-denominava de "sua cadelinha particular", a maioria cobrava uma taxa extra por sexo anal. Os anúncios excitaram Carmo, mas ele temia acabar com uma baranga, essa seria sua volta a vida sexual, ele precisava escolher bem. Então a palavra "ruiva" saltou em seus olhos:
"Putinha de elite: Ruiva, 22 anos, modelo."
Era nova, era ruiva e dizia ser modelo, Carmo não conseguiu imaginá-la feia. Ligou e combinou um encontro na mesma hora, em sua própria casa, ela deu seu preço, era muito cara, mas isso não era problema nenhum. Tomou um banho, se perfumou, vestiu seu melhor terno, seárou um espumante que guardava para o ano novo, queria causar uma boa impressão, mas o fato é que sair com um ricasso é o tipo de coisa que causa uma boa impressão em qualquer prostituta, na verdade causa boa impressão até em mulheres de família.
A campainha tocou, ela chegou. Carmo tremia, mas não estava tendo um de seus surtos, estava ansioso, percebeu que este momento era um momento sagrado na vida de um homem, o sabor do "porvir", o receio, o frio na barriga, antes de abrir a porta apreciou o momento, respirou fundo pela primeira vez em dias e sentiu-se vivo pela primeira vez em anos.
Ela era magra, estatura mediana, peitos e bunda de tamanho normal, cabelos cacheados e laranja, realmente era ruiva, seu rosto era muito feminino, Carmo esperava que uma puta tivesse um ar de "matadora", olhar sedutor, mas ela tinha um ar ingênuo, um olhar de menina, se passaria facilmente por uma garota de 15 anos, ele pensou em perguntar a idade dela, mas teve medo, preferiu acreditar no anúncio do que correr o risco.
Michele, como ela se chamava ou dizia se chamar, nunca se sentiu tão bem tratada por um cliente, jantaram salmão a luz de velas, beberam espumante e conversaram. Ela não entendia o que estava contecendo, sentiu-se uma princesa em uma espécie de conto de fadas moderno, ele era rico e bonito, não era casado ou mentia muito bem, tinha um ótimo gosto, etiqueta, um verdadeiro lorde e o olho roxo completava o quadro, dava a ele um ar humano, uma prova de que aquele homem não era perfeito, que era real. Sentiu-se excitada com o fato dele ter se envolvido em uma briga, exatamente como nos programas do Animal Planet. Precisou perguntar:
- Qual seu problema?
- Pois não?
- Qual seu problema cara? Você é o "Senhor-perfeição", é rico, bonito, tem um ótimo emprego, vive num palácio e está me tratando tão bem como nunca fui tratada em toda minha vida.
- Já assistiu aquele filme "Uma linda mulher"?
- É, estou me sentindo como a Julia Roberts agora, isso é estranho, isso não acontece, não na vida real, tam algo no ar, você é casado, não é? Ou será algum tipo de serial killer?
Carmo riu, mas sabia que ela já estava começando a enxergar a verdade, ele não é um homem normal.
- Olha, eu sou rico e quero passar uma noite gostosa com uma mulher bonita.
- Sim, e porque pagar por isso? Quero dizer, você consegue a mulher que quiser.
Ele teve vergonha de dizer que estava a anos sem sexo, que era depressivo e que a vida já não fazia sentido algum para ele, preferiu dar uma de homem seguro, e ele sabe fazer isso.
- É mais prático. As mulheres só querem saber do meu dinheiro, assim como você, mas a diferença é que amanhã você não vai me ligar para encher meu saco.
- Acho justo.
Ela pareceu acreditar, para sabia que havia algo estranho, alguma coisa obscura em Carmo. Se aproximou dele e o agarrou em cima da mesa de jantar, em um segundo ela passou de garota para mulher, Carmo se assustou, ela pegou seu pênis, mas ele não estava excitado.
- Algum problema?
- Não tenha pressa, vamos para minha hidromassagem.
Ele estava nervoso, sua mão esquerda começou a tremer, suava frio, era um começo de surto. Ele começou a pensar "Agora não!", recitava isso mentalmente como um mantra, tentou respirar fundo e fez algumas mentalizações que aprendeu no livro, mas não funcionou. Chegaram na banheira, se despiram e se beijaram. O corpo dela era cheio de sardas e delicado como uma boneca de porcelana, sua pele era macia e seu cabelo cheirava shampoo comum.
Ele tentou por algum tempo se excitar, mas não conseguiu. Sentiu que sua máscara de homem seguro caiu, seu pênis o traiu, revelando sua verdadeira face, a de um homem sem vida. Surtou, começou a respirar ofegante, suas mãos tremiam, tentou sair da banheira e caiu no chão. Michele ficou preocupada, tentou acalmá-lo:
- Relaxa cara! Isso acontece. Tenta respirar devagar.
Não funcionou, ela o arrastou para a cama e o cobriu, procurou em sua bolsa por um calmante, buscou um copo de água, ele aceitou, mal conseguia engolir a pílula junto com a água, disse gaguejando:
- Sai do meu quarto! Pega seu dinheiro e sai! Agora!
Michele obedeceu.
Enquanto ela pegava o dinheiro e se vestia, Carmo sentiu-se frustrado e sua frustração presente, parecia uma ressonância de cada fracasso que passou pela sua vida. Lembrou-se de cada garota que o rejeitou para ficar com um valentão no colegial. Lembrou-se dos amigos contando sobre suas primeiras experiências sexuais e de como ele usou os estudos como desculpa para não ter que enfrentar sua própria timidez . Lembrou-se também que esses mesmos amigos hoje estão casados e que ele vive em uma mansão gigantesca, mas que está sozinho. E acima de tudo, lembrou-se do dia em que o grande amor de sua vida casou-se.
Olhou mais uma vez para aquela bela mulher ruiva, como ele gostava, parecia saida de um dos seus sonhos eróticos da puberdade, despediu-se das sardas enquanto ela as cobria com suas roupas, despediu-se interiormente também dela, e sentiu que estava se despedindo de sua própria capacidade de ter prazer. Durante toda sua vida ele trocou o prazer pela responsabilidade, as festinhas do colégio pelos estudos, as pessoas pelo trabalho, isso estava enraizado nele, e agora ele não conseguia reverter sua situação. Estava paralisado no tempo, por fora era um homem feito e maduro, mas por dentro era um adolescente nerd cheio de espinhas, com medo de se relacionar e profundamente frustrado consigo mesmo.
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